domingo, 29 de agosto de 2010

No fim, um copo de wisky e um album velho de fotos.

"Tudo isso me perturbava porque eu pensara até então que, de certa forma, toda minha evolução conduzira lentamente a uma espécie de não-precisar-de-ninguém. Até então aceitara todas as ausências e dizia muitas vezes para os outros que me sentia um pouco como um álbum de retratos. Carregava centenas de fotografias amarelecidas em páginas que folheava detidamente durante a insônia e dentro dos ônibus olhando pelas janelas e nos elevadores de edifícios altos e em todos os lugares onde de repente ficava sozinho comigo mesmo. Virava as páginas lentamente, há muito tempo antes, e não me surpreendia nem me atemorizava pensar que muito tempo depois estaria da mesma forma de mãos dadas com um outro eu amortecido — da mesma forma — revendo antigas fotografias. Mas o que me doía, agora, era um passado próximo. "        Caio Fernando Abreu



E pensar que nesse meio tempo pude viver a sensação de não viver só. De não ter apenas como companhia um copo cheio até a borda de wisky.
Até hoje não consigo compreender como me conduzi novamente a esse estado. Quando te encontrei, acreditei que nunca mais estaria sozinha.
Engraçado. Logo eu, eu sei. Que me dizia auto suficiente, que dizia que não precisava de ninguém. Acho que acontece. Ao menos uma vez na vida a gente tem a chance de deixar de ser assim. Deixar de não querer mais ser sozinha.
Talvez, talvez isso aconteça mais de uma vez.
Talvez, minha última companhia não seja um album de fotos amareladas, uma nostalgia profunda e um copo de wisky.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Eu nunca (te) disse que te amei

Eu nunca (te) disse que te amei.

Nunca te liguei de madrugada por ter tido um sonho ruim. Nem mesmo demonstrei amor nas horas em que você precisou.
Eu nunca disse que te amei. Nunca disse pra ninguém. Nem te dei esperanças de que um dia eu fosse capaz de te amar.
Eu nunca te disse que te amei.
Que quando eu ia dormir sozinha, era o seu cheiro, o seu toque, a sua lembrança que me vinha a cabeça. Que eram os momentos que passei com você que me confortavam nos dias de chuva.
Eu nunca disse que te amei. Nunca correspondi a suas tentativas de me prender a você. As suas surpresas, fracassadas investidas. Ao jeito que me olhava, como se eu fosse única pra você.
Eu nunca te disse que te amei. Que cada vez que me olhava, meu espírito se iluminava, omeu dia ganhava tons fortes, vibrantes. Que cada palavra que você dizia pra mim alimentava a minha alma com a mesma intensidade que a água refresca o corpo em um dia quente.


Eu nunca disse que te amei.
Eu nunca te disse que te amei.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Isso aqui, sou eu!

Isso aqui é meu!

Isso aqui sou eu!

Vou logo te avisando, se não quiser escutar, vá embora! Faça como sempre fez. Vá. Bata a porta.

Mas não se esqueça! Não ouse esquecer que eu nunca menti. Nunca te iludi. Sempre fui transparente com você! Logo você, que arrancou de mim o que eu tive de mais precioso. O amor que tive por ti.

Não ouse se arrepender. Não olhe para trás. Se não aguenta ficar aqui. Se não aguenta me enxergar, vá embora. E não se demore. Não deixe a vontade que queima o seu peito ganhar da razão que inunda a sua mente.

Corra. Antes que seja tarde. Antes que consiga realmente me enxergar. Antes que deixe de me amar. Vá.

Porque essa aqui sou eu.

Isso aqui, sou eu.

Quem sabe?




Foi um sonho. Ou quem sabe um pesadelo.

Ao recobrar a consciência se deu conta. Foi um belo pesadelo.

Por alguma razão encontrou com ele. Na realidade, ela estava na casa dele, e sem saber o porque, sairam todos de lá juntos. Ela no banco da frente, ele no banco de trás.

Em um determinado ponto pararam. Ela sentiu uma mão em seu ombro. Conhecia aquele toque, aquele peso, a sensação era a mesma. E ouviu um sussurro "sou só eu". Por reflexo, virou a cabeça para o lado que seu ombro era amparado, deixou escapar um sorriso no canto da boca, que foi abafado por um beijo. De início tímido, mas que ao ser correspondido, se encheu de coragem.

Entre beijos, abraços e carinhos ele sumiu. Não pode entender bem o porque. Apenas tinha uma sensação boa...

Não sabia se era um sonho, ou quem sabe um pesadelo.

Talvez apenas uma lembrança.


Música de hoje: "Chega de Saudade - Tom Jobim"

"Vai minha tristeza,
e diz a ela que sem ela não pode ser,
diz-lhe, numa prece
Que ela regresse, porque eu não posso Mais sofrer.
Chega, de saudade
a realidade, É que sem ela não há paz,
não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai
Mas se ela voltar, se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei
Na sua boca,

dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos, e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim.
Não quero mais esse negócio de você longe de mim..."