domingo, 19 de setembro de 2010

Um chá para ela, por favor

E a vida continua mudando.

E quem disse que ela sabia que um dia o passado bateria a sua porta?

Ok. Não bateu exatamente a sua porta, digamos que apareceu do nada.

O local escolhido foi uma livraria. Passava os olhos na sessão de best seller's. Não que fosse o tipo de mulher que apreciasse somente os grandes lançamentos, ou ainda, o tipo de literatura que virava modinha. Na verdade, quando a questão eram os livros, os seus preferidos sempre foram os clássicos. Machado de Assis, José de Alencar [...] Sua prateleira era repleta de romances do tipo Senhora, O Guarani, Iracema... Passava o tempo entre as histórias das civilizações antigas, passeava pelo Egito e se arriscava em literatura estrangeira. Mas os seus preferidos, sempre foram os romances. Isso talvez por não se achar uma pessoa romântica no dia a dia. Achava que a literatura era a maneira com a qual compensava essa falta de romantismo em sua vida.

Mas hoje, hoje estava entre a sessão de best seller's. Na verdade, mais passava o tempo do que realmente prestava atenção. Seus olhos apenas percorriam os títulos dos livros, sem nem mesmo se preocuparem em fixar o que liam. Era como se a mensagem durasse em sua memória o tempo exato para ser lida.

Cansou-se dessa sessão.Resolveu continuar olhando, quem sabe algo chamaria a sua atenção. Era um sábado. Um sábado nublado, chuvoso, feio, um daqueles sábados que nada no mundo te faz querer sair da cama. Na verdade, se fosse por ela realmente não teria saido, mas um incidente no trabalho a fez levantar da cama e lidar com a realidade, por pior que ela pudesse aparentar naquele dia. Eram 2 horas da tarde. Já havia resolvido tudo o que tinha que resolver, e como o seu escritório ficava a alguns metros dessa livraria, resolveu passar ali e se distrair.

Mas vamos voltar para a biblioteca. Os motivos que a levaram até lá não são relevantes nesse momento. Lá estava ela, mudando de sessão, ia distraida, pensando em qual caminho iria trilhar até chegar em casa. Não reparou quando ele parou ao seu lado.

Ele olhou, desviou o olhar, olhou novamente, quis ter certeza de quem estava ao seu lado era exatamente ela. Parou um instante, quis adimira-la. Ela estava linda. Mesmo depois de todo esse tempo. Faziam o que? Uns 5 anos desde a última vez que se viram? E ela estava ainda mais linda. Aqueles 5 anos definitivamente a fizeram crescer, estava mais mulher. Uma bela mulher, era só o que conseguia pensar. Balançou a cabeça. Naqueles poucos segundos todos os momentos que viveram juntos passaram em sua mente. Exitou por um momento em falar com ela. As coisas entre eles não acabaram exatamente bem. Mas 5 anos haviam se passado, e aquilo não parecia do mesmo jeito nos dias de hoje.

Encostou uma das mãos no ombro dela. Ela levantou os olhos, estava olhando um livro. Parou por uns segundos, assimilou aquela imagem. Ela o conhecia, mas fazia tanto tempo.

Sorriu, disse oi, deu um abraço meio sem jeito. Disse que não acreditava que ele estivesse ali. Fazia tanto tempo. E se encontravam ali, em uma outra cidade, em uma livraria.

Ela lhe perguntou sobre a vida, sobre o trabalho, sobre como estava. A essa pergunta, ele respondeu que estava bem. Estava trabalhando, que inclusive o motivo de estar na cidade era que havia se mudado ha pouco mais de duas semanas. Sobre a vida, disse que havia se casado com a namorada dos tempos da faculdade. Disse que foi mais uma vítima do clichê. Tinham um filho. Um lindo garotinho chamado Bruno. Mostrou-lhe a foto. Mas que o casamento não havia dado certo, a incompatibilidade de profissões e de ambições tornaram a convivência impossível, e que a mudança era a chance que ele lhe estava proporcionando de mudar, de crescer, de correr atrás dos seus sonhos. Ela perguntou se a distância do seu filho não incomodava. Ele disse que sim, que a pior coisa da separação havia sido a distância que esta causaria entre ele e o seu filho. Mas disse também que lhe devia essa chance, de pelo menos uma vez ser egoísta e correr atras dos seus sonhos.

Ele lhe fez a mesma pergunta. Como estava? O que andava fazendo... Não se viam a tanto tempo! E eram tão amigos... Ela lhe disse que ao contrário dele, não havia se casado. No currículo, apenas relacionamentos fracassados, todos pelo mesmo motivo: ela sempre se dedicava mais ao seu trabalho do que a eles.

Antes de continuarem conversando, resolveram ir tomar um café. Sentaram a mesa, fizeram o pedido. Ele pediu um café puro, e perguntou se podia fazer o pedido por ela. Ela riu, e disse que sim.

"- Um chá para ela, por favor"

Ela sorriu mais uma vez. Depois de tanto tempo ele ainda sabia exatamente o que ela gostava.

Depois de tanto tempo ele ainda a conhecia.

[Continua...]

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